Cap.
3
O
Volúvel e o Fiel
Acontece sempre. Logo depois de se
tomar uma decisão por Cristo, o teto desmorona. Geralmente, não é um teto
literal; quase que sempre é algo mais que reboco e telha.
O problema é que, de modo geral, não
há ninguém por perto para ajudar. A pessoa está completamente só.
Pode ser que haja uma situação difícil
no trabalho. Se o pastor estivesse lá, provavelmente ele ajudaria a pessoa a se
acalmar e a aconselharia naquela situação. Mas não está. E a pessoa tem de
enfrentar o problema sozinha.
Timóteo teve uma experiência
semelhante logo após tornar-se cristão. Paulo, seu pai espiritual, estava
voltando para Antioquia da Síria, mais ou menos a 480 km de distância. As novas
igrejas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe tinham sido organizadas
havia pouco tempo. Seus novos líderes não eram experientes. Eram cristãos novos
que ainda estavam tentando entender tudo o que o apóstolo Paulo havia lhes
ensinado. E tinham, ao mesmo tempo, a responsabilidade de ensinar aquelas
verdades a outros.
As igrejas também estavam crescendo. A
maioria dos novos membros vinha da população gentia. Em Listra, Timóteo devia
ter ficado espantado ao ver a igreja expandir-se. Mesmo sem a presença de Paulo
e Barnabé, novos convertidos juntavam-se à igreja regularmente.
Então um terceiro grupo de visitantes
chegou a Listra. Os segundos visitantes foram os judeus, alarmados pelo fato do
novo ensino estar dividindo as suas sinagogas em Icônio e Antioquia da Pisídia.
Estes foram os que fizeram com que Paulo fosse apedrejado.
Parece que o terceiro grupo de
visitantes compunha-se de judeus convertidos ao Cristianismo, embora nem todos
os estudiosos do assunto concordem com essa idéia é até mesmo possível que
alguns do segundo grupo estivessem agora voltando com o terceiro grupo. A sua
filosofia pode bem ter sido: “Já que não se consegue combatê-los, junte-se a
eles, e assim você poderá opor-se a eles do lado de dentro.”
Não importa quem eram. O que eles
ensinavam é que era importante e devastador para as novas igrejas.
Aqui está a maneira pela qual podemos
imaginar que este terceiro grupo poderia ter tratado com os recém-convertidos
cristãos da igreja de Listra:
VISITANTES: As Escrituras ensinam que
é preciso ser circuncidado para fazer parte do povo de Deus.
IGREJA: Paulo disse que isso é para o
povo judeu, e que os cristãos gentios não precisam ser circuncidados.
VISITANTES: mas como você podem
afirmar que acreditam nas Escrituras se recusam-se a aceitar a circuncisão? E
também sobre a guarda do sábado e apáscoa dos judeus, e outras coisas como
estas?
IGREJA: São estas coisas realmente
necessárias?
VISITANTES: Claro que são. Estão nas
Escrituras. Talvez seja uma boa idéia fazer aqui um estudo bíblico e
ensinar-lhes as Leis de Moisés.
Confusão
Confusão por toda parte! John Drane em
um dos seus livros escreve: “Mas, quando estes novos cristãos começaram a ler o
Antigo Testamento sob a orientação dos cristãos judeus, eles se defrontaram com
uma quantidade de regras e regulamentos que eles sabiam jamais ser capazes de
cumprir, mesmo que isso fosse necessário para a sua salvação. Alguns decidiram
fazer uma tentativa heróica, e começaram por guardar o sábado judeu e
possivelmente também outras datas festivas judaicas. Um grande número deles
começou a pensar sobre a possibilidade de serem circuncidados, a fim de cumprir
o que parecia ser exigência do Antigo Testamento. Mas a grande maioria
simplesmente não sabia o que fazer.”
É provável que nem Timóteo soubesse o
que fazer. Como um rapaz judeu que não tinha sido circuncidado (certamente por
oposição do pai), ele estava no centro do problema. Ele poderia facilmente ter
cedido aos ensinamentos dos líderes judeus, mas uma coisa o aborrecia: o que
estavam dizendo sobre Paulo. Sugeriam que Paulo não sabia o que dizia. E coisas
ainda piores.
O diálogo poderia ter sido mais ou menos este:
VISITANTES: Quem foi que vocês
disseram que lhes ensinou esta idéia esquisita, que tudo o que precisam fazer é
crer em Jesus e assim serão salvos?
IGREJA: Paulo.
VISITANTES: Paulo do quê?
IGREJA: Paulo de Tarso.
VISITANTES: Paulo de Tarso?
IGREJA: Ele é um missionário da igreja
de Antioquia da Síria.
VISITANTES: Antioquia da Síria? Vocês
não acham que seria melhor seguir aquilo que a igreja-mãe de Jerusalém ensina?
Em Jerusalém estão os apóstolos, homens a quem Jesus realmente comissionou e
disse que se tornassem missionários. Pedro, Tiago, João e André estão lá. Paulo
não é um deles.
IGREJA: Mas eles não ensinam a mesma
coisa que Paulo?
VISITANTES: Bem, Paulo devia ensinar a
mesma coisa que eles. Mas o problema é que não ensina. Está fazendo uma
confusão danada.
IGREJA: Pensávamos que Paulo esteve em
Jerusalém conversando com esses apóstolos.
VISITANTES: Certo, e provavelmente
eles o autorizaram a pregar, mas não autorizaram a dizer o que ele disse.
IGREJA: O que querem dizer?
VISITANTES: Vocês já estiveram em
Jerusalém?
IGREJA: Não.
VISITANTES: Alguns de nós já fomos até
lá e conversamos com Pedro, Tiago e João. E vocês sabem de uma coisa?
IGREJA: O quê?
VISITANTES: Todos aqueles apóstolos
são circuncidados e todos eles guardam a Lei de Moisés. Se vocês quiserem ser
cristãos amadurecidos, precisam fazer o mesmo.
IGREJA: Mas Paulo disse...
VISITANTES: Paulo é apóstolo?
IGREJA: Assim nos pareceu.
VISITANTES: Bem, ele não é. E a única
autoridade que ele tem vem dos apóstolos verdadeiros de Jerusalém. Mas ainda há
esperança para vocês. Se nos derem atenção, podemos corrigir os erros de vocês.
Se Timóteo participou de um diálogo
destes, é fácil imaginar a sua reação. Ele deve ter sofrido ao ver muitos
conhecidos, judeus e gregos, aceitarem o pensamento que lhes era imposto e
atacarem Paulo como lhes tendo ensinado meia-verdade, ou até mesmo uma
distorção do evangelho dos apóstolos.
Mas havia outro argumento contra a
mensagem de Paulo que podia ter-se desenrolado mais ou menos assim:
VISITANTES: a propósito, o que foi que
mais os atraiu para o caminho das Escrituras?
IGREJA: a vida do povo. A imoralidade
está muito generalizada nos dias de hoje. É horrível ver como o povo procede em
público: prostituição, bebedeiras, crime nas ruas, e vergonha nenhuma de assim
proceder. Somente na comunidade judaica é que isso não acontece.
VISITANTES: E vocês sabem por que isso
não acontece na comunidade judaica?
IGREJA: Por quê?
VISITANTES: Por causa da Lei de
Moisés. Tire a Lei de Moisés, e os judeus se tornarão tão depravados quanto os
outros. E é isso que está errado com o ensino ministrado pelo seu amigo Paulo.
IGREJA: O que querem dizer com isso?
VISITANTES: Ele diz que os convertidos
gentios estão libertos da Lei. Liberdade é palavra que ele muito usa.
IGREJA: Certo. Isso é verdade. Ele se
refere frequentemente à liberdade cristã. E diz que isso é importante.
VISITANTES: Liberdade é uma palavra
perigosa. Se os novos convertidos seguirem o caminho da liberdade como Paulo
ensina, logo, logo, a igreja de vocês não será diferente do templo dos pagãos.
Vocês terão orgias e motins de pessoas embriagadas ao invés de adoração a
Jeová.
IGREJA: Não tínhamos pensado nisso.
VISITANTES: Bem, provavelmente nem
Paulo pensou nisso. Achamos que ele não pensou no que dizia numa porção de
lugares. Mesmo que haja alguma verdade naquilo que ele diz, não vale a pena
correr o risco.
Os visitantes diziam-se cristãos; eles
até asseveravam que estavam fortalecendo os ensinos de Paulo ao acrescentarem
algo mais. Mas, quando acabaram, não sobrava muito do autêntico Cristianismo.
Eles reivindicavam o título de “equipe da verdade”, seguindo implacavelmente as
pegadas de Paulo, com mais alguns ensinos. Mas não era o mesmo evangelho. Era algo
totalmente diferente.
Três
Fundamentos
Eles contestaram três ideias
fundamentais do Cristianismo: salvação, santificação e autoridade. Puseram em
dúvida três pontos: 1. Como tornar-se cristão. 2. Como viver a vida cristã
vitoriosa. 3. Como saber o que acreditar e o que fazer.
Estas três idéias fundamentais são
repetidamente desafiadas nos dias de hoje. Embora algumas outras idéias possam
ser mais flexíveis, estas três precisam ser preservadas tão firmemente quanto
possível.
Acho que Timóteo teria ficado um tanto
confuso com a chegada do último grupo de visitantes, mas duvido que ele jamais
tenha tido alguma dúvida quanto a estes três alicerces do Cristianismo. Se ele
assim o tivesse feito, acho que Paulo, ao escrever-lhe mais tarde aquelas duas
epístolas, teria mencionado a tendência de Timóteo a vacilar.
Paulo
e Pedro em Antioquia
Não demorou muito para que Paulo
percebesse que havia problemas na Galácia, ou mais especificamente, na parte
sul da província romana da Galácia. Paulo quase perdeu a vida por duas ou três
vezes ao fundar aquelas igrejas e, conforme as notícias que recebia, elas
estavam traindo os dogmas cristãos. Ele tinha trabalhado tão arduamente, e
agora parecia que seu trabalho estava se evaporando.
Na ocasião, Paulo parecia rodeado de
probemas. Depois da cansativa viagem missionároia – doença, apedrejamento,
turbas, alvoroçadas, etc. – ele fazia jus a um bom descanso. Mas certamente ele
não iria conseguir tal coisa em Antioquia da Síria.
Em primeiro lugar, quando Paulo voltou
a Antioquia, Simão Pedro chegou (Estudiosos da Bíblia não sabem se a visita de
Pedro ocorreu antes ou depois da primeira viagem missionária de Paulo; muitos,
porém, tais como Merril Tenney, F. F. Bruce, Alan Cole e William Ramsey, acham
que foi depois.) Pedro pode ter-se interessado em saber de primeira mão o
relatório de Paulo e Barnabé, ou simplesmente em saber como se desenvolvia a
igreja de Antioquia.
De qualquer modo, foi uma visita
agradável, pelo menos por algum tempo. Pedro tinha facilidade de comunicação
tanto com os judeus como com os gentios que compunham a igreja de Antioquia.
Comia com os cristãos sem levar em conta a origem deles ou a sua vida
pregressa.
Então, mais uma ez, alguns visitantes
chegaram e trouxeram agitação (Gálatas 2:12; Atos 15:1). Vieram de Jerusalém e
pareceram chocados pela maneira com que os cristãos judeus – até mesmo Simão
Pedro – se misturavam com os cristãos gentios como se não houvesse diferença
entre eles. E foram rigorosos ao afirmar: “Se não vos circuncidardes, segundo o
costume de Moisés, não podeis ser salvos” (Atos 15:1).
Naturalmente, Paulo ficou irritado.
Mas o que mais contribuiu para que Paulo se zangasse foi o próprio Pedro ter
deixado de comer com os gentios; e não somente Pedro, mas também Barnabé. Como
diz F. F Bruce: “A última pessoa, de quem se podia esperar isso, foi persuadida
a concordar com o afastamento da refeição em conjunto com os gentios.”
Paulo viu logo a significação do fato.
Se isso continuasse, não haveria unidade na família de Deus. Os gentios seriam
sempre considerados cristãos de segunda classe enquanto não fossem
circuncidados, isto quer dizer que a salvação deles seria pela fé mais a circuncisão, e não
somente pela fé.
Paulo não podia permitir que a conduta
de Pedro passasse sem repreensão. Ele sabia muito bem qual era a posição de
Pedro na igreja de Jerusalém. Assim mesmo, achou que precisava repreendê-lo em
público em benefício do futuro do evangelho.
Ora, sempre que dois líderes da igreja
estão em desavença, o ambiente torna-se agitado e tenso. A igreja de Antioquia
não foi exceção. Paulo mais tarde escreveu aos romanos: “Se possível, quanto
depender de vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18). Esta foi uma
ocasião em que Paulo sentiu que não era possível ter paz com todos. A causa do
evangelho estava em jogo. Pedro tinha de ser repreendido.
Na mesma época, Paulo recebeu notícias
de que o mesmo problema havia surgido nas igrejas gálatas, igrejas pelas quais
ele arriscara a própria vida.
É provável que sua vontade fosse
arrumar as malas e partir para a Galácia o quanto antes para esclarecer o
assunto. Obviamente, isso era-lhe impossível.
Tinha de ficar em Antioquia para que a
igreja não fosse levada de volta para o Judaísmo. Se “até mesmo Barnabé” foi
influenciado pelos visitantes de Jerusalém, a igreja não tinha condições de
mandar Paulo à Galácia, nem mesmo para uma curta visita.
Uma
carta aos gálatas
Entretanto, ele tinha de comunicar-se
rapidamente com aquelas igrejas. Cada dia de demora, mais uma alma poderia ser
iludida pelos judaizantes. Desse modo, no meio da confusão de idéias, de
frustração e preocupação, Paulo se dispôs a escrever ara as novas igrejas da
Galácia.
Enquanto escrevia deve ter
compreendido que precisava ter uma conferência de cúpula com os líderes
apostólicos de Jerusalém a fim de eliminar o problema de uma vez por todas.
Mas, os problemas na Galácia tinham de ser resolvidos imediatamente. Ele não podia
esperar para depois da conferência.
Foi a primeira de 12 ou mais cartas
que Paulo escreveria nos próximos 20 anos. E, talvez, fosse a mais exaltada.
Alguém já a chamou de “epístola explosiva”. Em algumas outras partes, ele fala
brusca e asperamente, em outras o tom é ameno, ou então ele explode. Foi
endereçada a um grupo de igrejas ao invés de a uma única igreja. Foi
provavelmente mandada como uma carta-circular para ser lida em todas as igrejas
gálatas, talvez seguindo a mesma ordem da viagem de Paulo: primeiro a igreja de
Antioquia da Pisídia, depois a igreja de Icônio, então a de Listra – cidade de
Timóteo – e finalmente a igreja mais nova que era a de Derbe.
Todo o tipo de boato circulava a
respeito de Paulo. Quando a carta chegou, a maioria dos gálatas talvez
estivesse extremamente confusa, a ponto de não saber o que acreditar. Talvez
eles estivessem querendo saber quem era mesmo Paulo de tarso.
Seria Paulo um homem sem força ou sem
propósito? Estaria ele apenas querendo agradar os homens? Teria ele abrandado
as exigências do Antigo Testamento? Estaria ele inventando a sua própria
doutrina? Tinha ele autoridade para ensinar o que foi transmitido às igrejas?
Afinal de contas, quem era Paulo?
Boatos
e Fé
Suponha que no seu trabalho você ouve
o boato de que o chefe vai dar a todos os empregados uma gratificação em
dinheiro no final do mês.
Se a sua reação for iguala minha, você
perguntará: “Quem disse?”
É a resposta a esta pergunta que
determinará a veracidade ou não do boato. Analise algumas destas possíveis
respostas e avalie se elas faria você acreditar ou não no boato:
·
-
Foi na lanchonete. Não sei bem quem foi, mas a pessoa que falou parecia estar
por dentro do assunto.
·
-
Bem, isto foi o que a Ester me contou; e você sabe que a melhor amiga dela é a
Marta, que é irmã do gerente de vendas, que conversa com o chefão todas as
semanas.
·
-
Eu li a notícia no quadro de avisos. Não estava assinada e achei isso um tanto
esquisito; mas a notícia parecia ter sido datilografada pela secretária do
patrão. A maioria das palavras estava escrita corretamente.
·
-
Acabei de ter uma reunião com o chefe, e ele disse que fará o anúncio oficial
esta tarde.
É interessante analisar por que uma
pessoa acredita no que ouve. Menciono a seguir três coisas que influenciam a
confiança ou crença:
1.
A
crença em alguma informação está na proporção direta da confiança que se tem na
pessoa que prestou a informação. Obviamente, se o maior gozador do escritório
disse que haverá um abono no fim do mês, será muito difícil alguém acreditar
nele mesmo que esteja falando a verdade.
2.
Acredita-se
muito mais facilmente quando o fato é compatível com situações anteriores. Em
outras palavras, se o patrão já deu abono em outras ocasiões é muito mais fácil
acreditar que ele o faça novamente agora. Se ele for conhecido como um
“pão-duro”, quem acreditará na história antes de receber o dinheiro?
3.
É
sempre difícil de acreditar que alguém dê algo a troco de nada. Somos tentados
a dizer: o que é que há? Quantas horas extras teremos de fazer na semana que
vem? Será que ele vai retirar alguns dias da nossa folga? Há “coisa” nisso aí.”
Agora transfira tudo isso para o
problema com o qual os gálatas se defrontaram no primeiro século.
Um homem chamado Paulo chegara à
cidade dizendo que a salvação veio pela graça de deus mediante a fé somente. A
salvação não dependia da circuncisão ou da guarda dos Dez Mandamentos. Dependia
do que Cristo já tinha feito na cruz.
Logo depois da partida de Paulo, os
judaizantes chegaram à cidade, dizendo: “Paulo estava errado. Claro, vocês
precisam crer em Jesus, mas também precisam ser circuncidados. Paulo não
conhecia bem o assunto.”
Em quem deviam os gálatas acreditar?
Bem, dependia do quanto eles confiavam
na pessoa que fez tal afirmação. Podia também depender de acreditarem ou não em
que Deus podia lhes dar tudo a troco de nada.
Se a igreja quisesse crescer, era
preciso reconhecer e afastar um bloqueio psicológico.
Podia-se confiar em Paulo? Conhecia
ele o assunto sobre o qual falava?
No que se refere ao abono, confiamos
na pessoa que está mais próxima do patrão. E os judaizantes diziam que Paulo
vinha de Antioquia, e não de Jerusalém onde os apóstolos residiam.
Na realidade, os judaizantes estavam
sugerindo que eles tinham recebido a mensagem de Jerusalém, dos próprios
apóstolos. E quando diziam “apóstolos” pode-se estar certo de que davam ênfase
à palavra como se Paulo fosse apenas um pseudo-apóstolo. Se Paulo realmente
recebeu instruções dos apóstolos, ele as deturpou, insinuavam eles.
Bem, era uma obra talhada para Paulo.
Imagine a agitação em Listra com a
chegada de sua carta. Tente adivinhar o que Timóteo sentiu ao ouvir a leitura
da epístola aos Gálatas pela primeira vez. Na sua mente devia passar perguntas
como estas:
Será que Paulo sabe mesmo o que diz? Que autoridade tem
ele para dizer isso? A salvação é mesmo tão fácil como ele afirma? E se for tão
fácil, isso não encoraja as pessoas a pecarem? Será que ele vai realmente
enfrentar o assunto, ou vai passá-lo por alto?
A defesa de Paulo
No momento em que um dos presbíteros
começou a ler a carta, a congregação viu logo que Paulo estava mesmo atacando o
assunto de frente.
As palavras eram vigorosas e
arrebatadoras: “Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de
homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os
mortos” (Gálatas 1:1).
Não havia dúvida. Este era o Paulo verdadeiro.
Ele não perdeu tempo e identificou-se como apóstolo e declarou que a sua
mensagem tinha vindo diretamente de Deus (v. 11 e 12).
Na maioria das outras epístolas, Paulo
incluiu uma palavra de agradecimento ou de recomendação logo depois da
saudação. Essa era a maneira educada de se escrever uma carta naquele tempo. Paulo
até achou alguma coisa pela qual podia louvar a Deus na igreja de Corinto, uma
igreja cheia de problemas. Mas, não há tal parágrafo na carta aos gálatas. Isto
provavelmente não foi porque não encontrasse algo digno de louvor para dizer. Antes,
deve ter sido porque ele estava escrevendo sob grande agitação emocional. Não se deteve com formalidades. Tinha de mergulhar
imediatamente no problema.
E assim fez. “Admira-me”, escreveu ele, “que
estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo, para
outro evangelho” (1:6). Paulo disse que eles se afastaram da verdade do
evangelho, não importando quem os tivesse levado a isso. “Mas, ainda que nós,
ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos
pregado, seja anátema. Assim como já dissemos, e agora repito, se alguém vos
prega evangelho que vá além daquele que recebemos, seja anátema” (Gálatas 1:8 e
9 ).
Linguagem áspera. Ao referir-se a um
anjo vindo do céu, é provável que estivesse pensando na visita que fez a Listra
e em como o povo pensou que ele e Barnabé haviam caído do céu como anjos.
Era claro que Paulo estava zangado e
com muita razão. Os gálatas não estavam brincando com diferentes versões das
notícias de um jornal. Eles estavam brincando com fogo, com fogo do inferno. Paulo
estava realmente agitado.
Os dois primeiros capítulos contém a
biografia resumida de Paulo. Ele relatou como, antes da conversão, fora fariseu
zeloso, subindo a escada do sucesso na sua profissão por intermédio da
perseguição aos cristãos, perseguição esta que contava com o apoio dos seus
superiores. Com tais antecedentes, quem pensaria ser possível ele dizer que a
circuncisão e a guarda da Lei não eram importantes para a salvação?
Ele se referiu à sua conversão na
estrada para Damasco, ressaltando o aspecto divino. Deus o tinha “separado”;
Deus o tinha “chamado”; Deus lhe tinha “revelado o seu Filho”. A sua salvação
não tinha sido algo que ele tivesse merecido; foi tudo pela graça de Deus
(Gálatas 1:15 e 16).
Qualquer um que estivesse prestando
atenção – e quem não estava? – teria entendido a explicação. Paulo não podia
ter inventado a mensagem; nem podia ter abrandado os pontos de vista judaicos
do evangelho tornando-o mais agradável aos gentios. Estava fazendo somente
aquilo que Deus lhe ordenara. Estava levando aos gálatas a mensagem recebida de
Deus.
Em outras palavras, Paulo disse: “Se
vocês não gostam do evangelho que estou pregando, não ponham a culpa em mim. Ponham
a culpa em Deus. Foi tudo obra dele.”
Paulo sabia que se a sua salvação
dependesse dele próprio, ainda estaria perseguindo os cristãos. Mas Deus o
havia chamado e ele não tinha dúvidas de que a iniciativa era de Deus.
De igual modo, a mensagem que ele
pregava era a mensagem divina, e não dele, e era isso que lhe permitia ser
ousado na pregação. Veja só! Se Deus o chamar para ir a algum lugar, e se Deus
lhe der a mensagem para pregar, você não precisa preocupar-se. Você está nas
mãos de Deus, e não há lugar mais seguro do que esse.
Estas lições eram as que Timóteo ainda
tinha de aprender. Ele estava preocupado com a sua falta de capacidade de
enfrentar situações realmente difíceis.
Se, porém, é Deus que toma a
iniciativa da nossa salvação e nos dá a mensagem, então não precisamos
preocupar-nos com a falta de capacidade. Se o relacionamento vertical está
garantido, não importa a incógnita dos relacionamentos horizontais.
Na última metade do capítulo 1 da
Epístola aos Gálatas, Paulo ressalta que a sua autoridade é vertical, não
horizontal. Não consultou os outros apóstolos sobre o que deveria pregar. Era mais
importante considerar a soberania divina que pensar na reação humana. E era
mais importante considerar a comunhão com Deus que a confraternização com os
irmãos.
Não se pode negar que a vida de Paulo foi
muito movimentada, como fora movimentada a vida de Cristo. Mas, como Jesus
sentiu necessidade de sair para orar muito antes do amanhecer, assim Paulo achou
importante ficar na Arábia durante três anos antes dos seus 30 anos de
ministério cristão.
Nos dias de hoje, confraternização
tornou-se mais popular do que adoração. Algumas vezes os nossos compromissos de
comunhão com os homens fazem com que não tenhamos tempo para a comunhão com Deus.
Quando Paulo chegou a Jerusalém depois
de ter passado três anos no deserto da Arábia, os discípulos tiveram medo dele
(Atos 9:26) até que Barnabé o tomou sob sua proteção. Parece que mesmo com Barnabé
ao lado de Paulo, somente Tiago, o irmão do Senhor, e Pedro passaram algum
tempo com ele.
Durante 12 a 14 anos depois (os judeus
contavam o tempo de um modo um pouco diferente do atual; partes de um ano eram
contadas como se fossem anos inteiros), Paulo esteve pregando e ensinando o
evangelho em Antioquia da Síria e Tarso da Cilícia. Então ele voltou novamente
a Jerusalém. É provável que esta visita (Gálatas 2) seja a mencionada por Lucas
em Atos 11:30, embora alguns estudiosos das Escrituras não concordem
absolutamente com isso. Embora o objetivo principal tenha sido trazer fundos
para aliviara fome dos cristãos de Jerusalém e dos seus arredores, Paulo
aproveitou a oportunidade para explicar claramente com todos os detalhes o seu
acesso teológico aos gentios. Ele queria assegurar-se de que a sua pregação
estava na mesma linha do ensinamento dos outros apóstolos. Depois do encontro,
os outros apóstolos cumprimentaram Barnabé e Paulo e os encorajaram a continuar
pregando o evangelho aos gentios.
Tudo isto ele explicou na sua carta
(Gálatas 1-2)
A esta altura, Paulo já havia
assinalado os seus pontos principais: 1. A sua mensagem veio de Deus, e não de
homens. 2. Não era o tipo de mensagem que se esperasse que alguém como ele, de
antecedentes farisaicos, inventasse. 3. Os apóstolos estavam de pleno acordo
com a sua mensagem.
Acordo, sim.
Mas nem sempre entendiam tudo o que
isso significava.
Como F. F. Bruce afirma: “A posição de
Paulo era bem definida porque ele já havia meditado no problema e o
solucionado; os líderes de Jerusalém ainda não tinham tido oportunidade de
pensar nessas questões.”
Deste modo Paulo ajudou-os no decurso
da reflexão. Ele deu um exemplo (Gálatas 2) que já mencionei. Pedro veio a
Antioquia e confraternizou de todas as maneiras com os judeus e com gentios. Logo
depois, chegaram judeus de Jerusalém; então, Pedro começou a “segregar-se”. Por
isso Paulo teve de ajudar a Pedro a “pensar no assunto”.
A conversa de Pedro e Paulo poderia
ter sido mais ou menos assim:
PAULO: Você não me disse que Jesus
veio para chamar pecadores, não os justos, para o arrependimento, que ele veio
para buscar a ovelha perdida e trazer de volta o filho pródigo?
PEDRO: Sim, foi isso mesmo.
PAULO: E você não me disse que no dia
de Pentecostes você pregou e disse à multidão que tudo que eles precisavam
fazer era arrepender-se e crer?
PEDRO: Perfeitamente.
PAULO: Foi a Lei que trouxe salvação
para aquele povo?
PEDRO: Absolutamente, não. Foi Jesus.
PAULO: Então o que a Lei fez por eles?
PEDRO: A Lei apenas mostrou que somos
todos pecadores e precisamos de um Salvador.
PAULO: E você, admitindo que é
pecador, não se está colocando na mesma situação dos gentios, quanto à
salvação?
PEDRO: Perfeitamente. Compreendi isso
quando batizei Cornélio, o centurião.
PAULO: Então, quanto à salvação, não
há diferença entre judeus e gentios?
PEDRO: Certo. A salvação não tem nada
que ver com a guarda da Lei. Vem somente pela fé em Jesus Cristo.
PAULO: Então por que você deixou de
comer com os gentios quando os seus amigos de Jerusalém chegaram? Por que
aquelas leis e regulamentos são tão importantes para você?
PEDRO: Bem, não são importantes para a
salvação, mas eu não queria levá-los a pecar.
PAULO: Mas, se comendo com os gentios
você estava demonstrando sua unidade cristã com eles, então Jesus deve ter
levado você a pecar.
PEDRO: Jesus não leva ninguém a pecar.
PAULO: Eu sei. Você não percebe o
quanto a sua posição é absurda?
PEDRO: Bem, não é mesmo muito
coerente. Mas coerência jamais foi o meu forte. Diga-me, Paulo, se você não
tiver regras e regulamentos para seguir, como poderá viver uma vida santa?
PAULO: Bem, Pedro, diariamente eu me
vejo crucificado com Cristo. Assim, em certo sentido o velho Paulo está morto. Embora,
é claro, eu ainda esteja vivo. Mas nesta nova vida que tenho, estou vivendo
pela fé naquele que em amou e deu a sua própria vida por mim. Se a cruz de
Cristo foi suficientemente grande para me salvar, ela também é suficientemente
grande para me guardar. (Gálatas 2:20).
Paulo não estava interessado em contar
aos gálatas que tinha posto Pedro no seu lugar. Estava interessado, porém, em
restaurar a sua credibilidade. Podiam os gálatas confiar nele? Sabia ele o que
estava falando? Era ele realmente um apóstolo conforme afirmava? Era ele digno
de crédito em questões de valor eterno?
É claro que o objetivo real de Paulo em
estabelecer a sua credibilidade envolvia a própria natureza do evangelho. Podiam
os gálatas confiar em Paulo no tocante à salvação? Não era uma indagação
referente a leis, tais como se deviam ou não preparar uma refeição no dia do
Senhor. Era: “Como é que somos salvos?” e esta indagação era o âmago, a essência
do Cristianismo.
E o âmago do argumento de Paulo acha-se
na pergunta: “recebestes o Espírito Santo pelas obras da lei, ou pela pregação
da fé?” (Gálatas 3:2).
Não havia dúvida sobre a resposta, mas
Paulo fez a mesma pergunta de outro modo: “Aquele, pois, que vos concede o
espírito e que opera milagres entre vós, porventura o faz pelas obras da lei,
ou pela pregação da fé?” (3:5).
Mais uma vez não havia dúvida de qual
seria a resposta.
Assim, Paulo tornou o argumento mais
claro. “É o caso de Abraão que creu em deus, e isso lhe foi imputado por
justiça” (Gênesis 15:6). Isso foi antes de deus ter instituído o rito da
circuncisão.
Mas Paulo ainda argumentou: “Suponha
que uma pessoa queira ser salva pela Lei de qualquer jeito. Bem, a Lei exige
perfeição. Se um homem não for 100% perfeito, ele está debaixo da maldição”. E Paulo
tinha certeza de que não havia muitas pessoas 100% perfeitas na Galácia (Gálatas
3:10-12).
Paulo chegou aonde queria. Em toda a
epístola aos Gálatas nota-se uma linguagem forte, mas também há ternura (Gálatas
4:12-20, por exemplo). Ele se expressou como um pai preocupado o faria para com
um filho teimoso.
É evidente que Paulo estava
desapontado com os gálatas. Eles eram inconstantes e facilmente influenciados.
Apesar de os gálatas não demonstrarem
possuir constância, Timóteo a possuía. Ele tinha outras fraquezas e
fragilidades, mas podia-se confiar nele; era digno de confiança; era fiel.
É difícil ser fiel quando todos ao
redor estão vacilando. É difícil ser fiel quando a pessoa reconhece ser fraca e
tímida. Mas o que impressionou Paulo foi a fidelidade de Timóteo (I Coríntios
4:17).
Em Gálatas 5, Paulo delineou o fruto
do Espírito e mencionou a palavra fé como a sétima da lista, que também
significa fidelidade e também lealdade. Esse era um fruto do espírito que Timóteo
possuía.
Jesus disse: “Quem é fiel no pouco,
também é fiel no muito” (Lucas 16:10). Não foi pouca coisa para Timóteo o fato
de permanecer fiel quando outros estavam censurando Paulo e seguindo os
ensinamentos dos judaizantes.
Mas ainda viriam provas maiores para a
fidelidade de Timóteo.
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