sexta-feira, 1 de julho de 2016

Cap 3 - O Volúvel e o Fiel

Cap. 3
O Volúvel e o Fiel

Acontece sempre. Logo depois de se tomar uma decisão por Cristo, o teto desmorona. Geralmente, não é um teto literal; quase que sempre é algo mais que reboco e telha.
O problema é que, de modo geral, não há ninguém por perto para ajudar. A pessoa está completamente só.
Pode ser que haja uma situação difícil no trabalho. Se o pastor estivesse lá, provavelmente ele ajudaria a pessoa a se acalmar e a aconselharia naquela situação. Mas não está. E a pessoa tem de enfrentar o problema sozinha.
Timóteo teve uma experiência semelhante logo após tornar-se cristão. Paulo, seu pai espiritual, estava voltando para Antioquia da Síria, mais ou menos a 480 km de distância. As novas igrejas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe tinham sido organizadas havia pouco tempo. Seus novos líderes não eram experientes. Eram cristãos novos que ainda estavam tentando entender tudo o que o apóstolo Paulo havia lhes ensinado. E tinham, ao mesmo tempo, a responsabilidade de ensinar aquelas verdades a outros.
As igrejas também estavam crescendo. A maioria dos novos membros vinha da população gentia. Em Listra, Timóteo devia ter ficado espantado ao ver a igreja expandir-se. Mesmo sem a presença de Paulo e Barnabé, novos convertidos juntavam-se à igreja regularmente.
Então um terceiro grupo de visitantes chegou a Listra. Os segundos visitantes foram os judeus, alarmados pelo fato do novo ensino estar dividindo as suas sinagogas em Icônio e Antioquia da Pisídia. Estes foram os que fizeram com que Paulo fosse apedrejado.
Parece que o terceiro grupo de visitantes compunha-se de judeus convertidos ao Cristianismo, embora nem todos os estudiosos do assunto concordem com essa idéia é até mesmo possível que alguns do segundo grupo estivessem agora voltando com o terceiro grupo. A sua filosofia pode bem ter sido: “Já que não se consegue combatê-los, junte-se a eles, e assim você poderá opor-se a eles do lado de dentro.”
Não importa quem eram. O que eles ensinavam é que era importante e devastador para as novas igrejas.
Aqui está a maneira pela qual podemos imaginar que este terceiro grupo poderia ter tratado com os recém-convertidos cristãos da igreja de Listra:
VISITANTES: As Escrituras ensinam que é preciso ser circuncidado para fazer parte do povo de Deus.
IGREJA: Paulo disse que isso é para o povo judeu, e que os cristãos gentios não precisam ser circuncidados.
VISITANTES: mas como você podem afirmar que acreditam nas Escrituras se recusam-se a aceitar a circuncisão? E também sobre a guarda do sábado e apáscoa dos judeus, e outras coisas como estas?
IGREJA: São estas coisas realmente necessárias?
VISITANTES: Claro que são. Estão nas Escrituras. Talvez seja uma boa idéia fazer aqui um estudo bíblico e ensinar-lhes as Leis de Moisés.

Confusão

Confusão por toda parte! John Drane em um dos seus livros escreve: “Mas, quando estes novos cristãos começaram a ler o Antigo Testamento sob a orientação dos cristãos judeus, eles se defrontaram com uma quantidade de regras e regulamentos que eles sabiam jamais ser capazes de cumprir, mesmo que isso fosse necessário para a sua salvação. Alguns decidiram fazer uma tentativa heróica, e começaram por guardar o sábado judeu e possivelmente também outras datas festivas judaicas. Um grande número deles começou a pensar sobre a possibilidade de serem circuncidados, a fim de cumprir o que parecia ser exigência do Antigo Testamento. Mas a grande maioria simplesmente não sabia o que fazer.”
É provável que nem Timóteo soubesse o que fazer. Como um rapaz judeu que não tinha sido circuncidado (certamente por oposição do pai), ele estava no centro do problema. Ele poderia facilmente ter cedido aos ensinamentos dos líderes judeus, mas uma coisa o aborrecia: o que estavam dizendo sobre Paulo. Sugeriam que Paulo não sabia o que dizia. E coisas ainda piores.
 O diálogo poderia ter sido mais ou menos este:
VISITANTES: Quem foi que vocês disseram que lhes ensinou esta idéia esquisita, que tudo o que precisam fazer é crer em Jesus e assim serão salvos?
IGREJA: Paulo.
VISITANTES: Paulo do quê?
IGREJA: Paulo de Tarso.
VISITANTES: Paulo de Tarso?
IGREJA: Ele é um missionário da igreja de Antioquia da Síria.
VISITANTES: Antioquia da Síria? Vocês não acham que seria melhor seguir aquilo que a igreja-mãe de Jerusalém ensina? Em Jerusalém estão os apóstolos, homens a quem Jesus realmente comissionou e disse que se tornassem missionários. Pedro, Tiago, João e André estão lá. Paulo não é um deles.
IGREJA: Mas eles não ensinam a mesma coisa que Paulo?
VISITANTES: Bem, Paulo devia ensinar a mesma coisa que eles. Mas o problema é que não ensina. Está fazendo uma confusão danada.
IGREJA: Pensávamos que Paulo esteve em Jerusalém conversando com esses apóstolos.
VISITANTES: Certo, e provavelmente eles o autorizaram a pregar, mas não autorizaram a dizer o que ele disse.
IGREJA: O que querem dizer?
VISITANTES: Vocês já estiveram em Jerusalém?
IGREJA: Não.
VISITANTES: Alguns de nós já fomos até lá e conversamos com Pedro, Tiago e João. E vocês sabem de uma coisa?
IGREJA: O quê?
VISITANTES: Todos aqueles apóstolos são circuncidados e todos eles guardam a Lei de Moisés. Se vocês quiserem ser cristãos amadurecidos, precisam fazer o mesmo.
IGREJA: Mas Paulo disse...
VISITANTES: Paulo é apóstolo?
IGREJA: Assim nos pareceu.
VISITANTES: Bem, ele não é. E a única autoridade que ele tem vem dos apóstolos verdadeiros de Jerusalém. Mas ainda há esperança para vocês. Se nos derem atenção, podemos corrigir os erros de vocês.
Se Timóteo participou de um diálogo destes, é fácil imaginar a sua reação. Ele deve ter sofrido ao ver muitos conhecidos, judeus e gregos, aceitarem o pensamento que lhes era imposto e atacarem Paulo como lhes tendo ensinado meia-verdade, ou até mesmo uma distorção do evangelho dos apóstolos.
Mas havia outro argumento contra a mensagem de Paulo que podia ter-se desenrolado mais ou menos assim:
VISITANTES: a propósito, o que foi que mais os atraiu para o caminho das Escrituras?
IGREJA: a vida do povo. A imoralidade está muito generalizada nos dias de hoje. É horrível ver como o povo procede em público: prostituição, bebedeiras, crime nas ruas, e vergonha nenhuma de assim proceder. Somente na comunidade judaica é que isso não acontece.
VISITANTES: E vocês sabem por que isso não acontece na comunidade judaica?
IGREJA: Por quê?
VISITANTES: Por causa da Lei de Moisés. Tire a Lei de Moisés, e os judeus se tornarão tão depravados quanto os outros. E é isso que está errado com o ensino ministrado pelo seu amigo Paulo.
IGREJA: O que querem dizer com isso?
VISITANTES: Ele diz que os convertidos gentios estão libertos da Lei. Liberdade é palavra que ele muito usa.
IGREJA: Certo. Isso é verdade. Ele se refere frequentemente à liberdade cristã. E diz que isso é importante.
VISITANTES: Liberdade é uma palavra perigosa. Se os novos convertidos seguirem o caminho da liberdade como Paulo ensina, logo, logo, a igreja de vocês não será diferente do templo dos pagãos. Vocês terão orgias e motins de pessoas embriagadas ao invés de adoração a Jeová.
IGREJA: Não tínhamos pensado nisso.
VISITANTES: Bem, provavelmente nem Paulo pensou nisso. Achamos que ele não pensou no que dizia numa porção de lugares. Mesmo que haja alguma verdade naquilo que ele diz, não vale a pena correr o risco.
Os visitantes diziam-se cristãos; eles até asseveravam que estavam fortalecendo os ensinos de Paulo ao acrescentarem algo mais. Mas, quando acabaram, não sobrava muito do autêntico Cristianismo. Eles reivindicavam o título de “equipe da verdade”, seguindo implacavelmente as pegadas de Paulo, com mais alguns ensinos. Mas não era o mesmo evangelho. Era algo totalmente diferente.

Três Fundamentos

Eles contestaram três ideias fundamentais do Cristianismo: salvação, santificação e autoridade. Puseram em dúvida três pontos: 1. Como tornar-se cristão. 2. Como viver a vida cristã vitoriosa. 3. Como saber o que acreditar e o que fazer.
Estas três idéias fundamentais são repetidamente desafiadas nos dias de hoje. Embora algumas outras idéias possam ser mais flexíveis, estas três precisam ser preservadas tão firmemente quanto possível.
Acho que Timóteo teria ficado um tanto confuso com a chegada do último grupo de visitantes, mas duvido que ele jamais tenha tido alguma dúvida quanto a estes três alicerces do Cristianismo. Se ele assim o tivesse feito, acho que Paulo, ao escrever-lhe mais tarde aquelas duas epístolas, teria mencionado a tendência de Timóteo a vacilar.

Paulo e Pedro em Antioquia

Não demorou muito para que Paulo percebesse que havia problemas na Galácia, ou mais especificamente, na parte sul da província romana da Galácia. Paulo quase perdeu a vida por duas ou três vezes ao fundar aquelas igrejas e, conforme as notícias que recebia, elas estavam traindo os dogmas cristãos. Ele tinha trabalhado tão arduamente, e agora parecia que seu trabalho estava se evaporando.
Na ocasião, Paulo parecia rodeado de probemas. Depois da cansativa viagem missionároia – doença, apedrejamento, turbas, alvoroçadas, etc. – ele fazia jus a um bom descanso. Mas certamente ele não iria conseguir tal coisa em Antioquia da Síria.
Em primeiro lugar, quando Paulo voltou a Antioquia, Simão Pedro chegou (Estudiosos da Bíblia não sabem se a visita de Pedro ocorreu antes ou depois da primeira viagem missionária de Paulo; muitos, porém, tais como Merril Tenney, F. F. Bruce, Alan Cole e William Ramsey, acham que foi depois.) Pedro pode ter-se interessado em saber de primeira mão o relatório de Paulo e Barnabé, ou simplesmente em saber como se desenvolvia a igreja de Antioquia.
De qualquer modo, foi uma visita agradável, pelo menos por algum tempo. Pedro tinha facilidade de comunicação tanto com os judeus como com os gentios que compunham a igreja de Antioquia. Comia com os cristãos sem levar em conta a origem deles ou a sua vida pregressa.
Então, mais uma ez, alguns visitantes chegaram e trouxeram agitação (Gálatas 2:12; Atos 15:1). Vieram de Jerusalém e pareceram chocados pela maneira com que os cristãos judeus – até mesmo Simão Pedro – se misturavam com os cristãos gentios como se não houvesse diferença entre eles. E foram rigorosos ao afirmar: “Se não vos circuncidardes, segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos” (Atos 15:1).
Naturalmente, Paulo ficou irritado. Mas o que mais contribuiu para que Paulo se zangasse foi o próprio Pedro ter deixado de comer com os gentios; e não somente Pedro, mas também Barnabé. Como diz F. F Bruce: “A última pessoa, de quem se podia esperar isso, foi persuadida a concordar com o afastamento da refeição em conjunto com os gentios.”
Paulo viu logo a significação do fato. Se isso continuasse, não haveria unidade na família de Deus. Os gentios seriam sempre considerados cristãos de segunda classe enquanto não fossem circuncidados, isto quer dizer que a salvação deles  seria pela fé mais a circuncisão, e não somente pela fé.
Paulo não podia permitir que a conduta de Pedro passasse sem repreensão. Ele sabia muito bem qual era a posição de Pedro na igreja de Jerusalém. Assim mesmo, achou que precisava repreendê-lo em público em benefício do futuro do evangelho.
Ora, sempre que dois líderes da igreja estão em desavença, o ambiente torna-se agitado e tenso. A igreja de Antioquia não foi exceção. Paulo mais tarde escreveu aos romanos: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18). Esta foi uma ocasião em que Paulo sentiu que não era possível ter paz com todos. A causa do evangelho estava em jogo. Pedro tinha de ser repreendido.
Na mesma época, Paulo recebeu notícias de que o mesmo problema havia surgido nas igrejas gálatas, igrejas pelas quais ele arriscara a própria vida.
É provável que sua vontade fosse arrumar as malas e partir para a Galácia o quanto antes para esclarecer o assunto. Obviamente, isso era-lhe impossível.
Tinha de ficar em Antioquia para que a igreja não fosse levada de volta para o Judaísmo. Se “até mesmo Barnabé” foi influenciado pelos visitantes de Jerusalém, a igreja não tinha condições de mandar Paulo à Galácia, nem mesmo para uma curta visita.

Uma carta aos gálatas

Entretanto, ele tinha de comunicar-se rapidamente com aquelas igrejas. Cada dia de demora, mais uma alma poderia ser iludida pelos judaizantes. Desse modo, no meio da confusão de idéias, de frustração e preocupação, Paulo se dispôs a escrever ara as novas igrejas da Galácia.
Enquanto escrevia deve ter compreendido que precisava ter uma conferência de cúpula com os líderes apostólicos de Jerusalém a fim de eliminar o problema de uma vez por todas. Mas, os problemas na Galácia tinham de ser resolvidos imediatamente. Ele não podia esperar para depois da conferência.
Foi a primeira de 12 ou mais cartas que Paulo escreveria nos próximos 20 anos. E, talvez, fosse a mais exaltada. Alguém já a chamou de “epístola explosiva”. Em algumas outras partes, ele fala brusca e asperamente, em outras o tom é ameno, ou então ele explode. Foi endereçada a um grupo de igrejas ao invés de a uma única igreja. Foi provavelmente mandada como uma carta-circular para ser lida em todas as igrejas gálatas, talvez seguindo a mesma ordem da viagem de Paulo: primeiro a igreja de Antioquia da Pisídia, depois a igreja de Icônio, então a de Listra – cidade de Timóteo – e finalmente a igreja mais nova que era a de Derbe.
Todo o tipo de boato circulava a respeito de Paulo. Quando a carta chegou, a maioria dos gálatas talvez estivesse extremamente confusa, a ponto de não saber o que acreditar. Talvez eles estivessem querendo saber quem era mesmo Paulo de tarso.
Seria Paulo um homem sem força ou sem propósito? Estaria ele apenas querendo agradar os homens? Teria ele abrandado as exigências do Antigo Testamento? Estaria ele inventando a sua própria doutrina? Tinha ele autoridade para ensinar o que foi transmitido às igrejas? Afinal de contas, quem era Paulo?

Boatos e Fé

Suponha que no seu trabalho você ouve o boato de que o chefe vai dar a todos os empregados uma gratificação em dinheiro no final do mês.
Se a sua reação for iguala minha, você perguntará: “Quem disse?”
É a resposta a esta pergunta que determinará a veracidade ou não do boato. Analise algumas destas possíveis respostas e avalie se elas faria você acreditar ou não no boato:
·         - Foi na lanchonete. Não sei bem quem foi, mas a pessoa que falou parecia estar por dentro do assunto.
·         - Bem, isto foi o que a Ester me contou; e você sabe que a melhor amiga dela é a Marta, que é irmã do gerente de vendas, que conversa com o chefão todas as semanas.
·         - Eu li a notícia no quadro de avisos. Não estava assinada e achei isso um tanto esquisito; mas a notícia parecia ter sido datilografada pela secretária do patrão. A maioria das palavras estava escrita corretamente.
·         - Acabei de ter uma reunião com o chefe, e ele disse que fará o anúncio oficial esta tarde.
É interessante analisar por que uma pessoa acredita no que ouve. Menciono a seguir três coisas que influenciam a confiança ou crença:
1.    A crença em alguma informação está na proporção direta da confiança que se tem na pessoa que prestou a informação. Obviamente, se o maior gozador do escritório disse que haverá um abono no fim do mês, será muito difícil alguém acreditar nele mesmo que esteja falando a verdade.
2.    Acredita-se muito mais facilmente quando o fato é compatível com situações anteriores. Em outras palavras, se o patrão já deu abono em outras ocasiões é muito mais fácil acreditar que ele o faça novamente agora. Se ele for conhecido como um “pão-duro”, quem acreditará na história antes de receber o dinheiro?
3.    É sempre difícil de acreditar que alguém dê algo a troco de nada. Somos tentados a dizer: o que é que há? Quantas horas extras teremos de fazer na semana que vem? Será que ele vai retirar alguns dias da nossa folga? Há “coisa” nisso aí.”

Agora transfira tudo isso para o problema com o qual os gálatas se defrontaram no primeiro século.
Um homem chamado Paulo chegara à cidade dizendo que a salvação veio pela graça de deus mediante a fé somente. A salvação não dependia da circuncisão ou da guarda dos Dez Mandamentos. Dependia do que Cristo já tinha feito na cruz.
Logo depois da partida de Paulo, os judaizantes chegaram à cidade, dizendo: “Paulo estava errado. Claro, vocês precisam crer em Jesus, mas também precisam ser circuncidados. Paulo não conhecia bem o assunto.”
Em quem deviam os gálatas acreditar?
Bem, dependia do quanto eles confiavam na pessoa que fez tal afirmação. Podia também depender de acreditarem ou não em que Deus podia lhes dar tudo a troco de nada.
Se a igreja quisesse crescer, era preciso reconhecer e afastar um bloqueio psicológico.
Podia-se confiar em Paulo? Conhecia ele o assunto sobre o qual falava?
No que se refere ao abono, confiamos na pessoa que está mais próxima do patrão. E os judaizantes diziam que Paulo vinha de Antioquia, e não de Jerusalém onde os apóstolos residiam.
Na realidade, os judaizantes estavam sugerindo que eles tinham recebido a mensagem de Jerusalém, dos próprios apóstolos. E quando diziam “apóstolos” pode-se estar certo de que davam ênfase à palavra como se Paulo fosse apenas um pseudo-apóstolo. Se Paulo realmente recebeu instruções dos apóstolos, ele as deturpou, insinuavam eles.
Bem, era uma obra talhada para Paulo.
Imagine a agitação em Listra com a chegada de sua carta. Tente adivinhar o que Timóteo sentiu ao ouvir a leitura da epístola aos Gálatas pela primeira vez. Na sua mente devia passar perguntas como estas:
Será que Paulo sabe mesmo o que diz? Que autoridade tem ele para dizer isso? A salvação é mesmo tão fácil como ele afirma? E se for tão fácil, isso não encoraja as pessoas a pecarem? Será que ele vai realmente enfrentar o assunto, ou vai passá-lo por alto?

A defesa de Paulo

No momento em que um dos presbíteros começou a ler a carta, a congregação viu logo que Paulo estava mesmo atacando o assunto de frente.
As palavras eram vigorosas e arrebatadoras: “Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gálatas 1:1).
Não havia dúvida. Este era o Paulo verdadeiro. Ele não perdeu tempo e identificou-se como apóstolo e declarou que a sua mensagem tinha vindo diretamente de Deus (v. 11 e 12).
Na maioria das outras epístolas, Paulo incluiu uma palavra de agradecimento ou de recomendação logo depois da saudação. Essa era a maneira educada de se escrever uma carta naquele tempo. Paulo até achou alguma coisa pela qual podia louvar a Deus na igreja de Corinto, uma igreja cheia de problemas. Mas, não há tal parágrafo na carta aos gálatas. Isto provavelmente não foi porque não encontrasse algo digno de louvor para dizer. Antes, deve ter sido porque ele estava escrevendo sob grande agitação emocional. Não se  deteve com formalidades. Tinha de mergulhar imediatamente no problema.
 E assim fez. “Admira-me”, escreveu ele, “que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho” (1:6). Paulo disse que eles se afastaram da verdade do evangelho, não importando quem os tivesse levado a isso. “Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebemos, seja anátema” (Gálatas 1:8 e 9 ).
Linguagem áspera. Ao referir-se a um anjo vindo do céu, é provável que estivesse pensando na visita que fez a Listra e em como o povo pensou que ele e Barnabé haviam caído do céu como anjos.
Era claro que Paulo estava zangado e com muita razão. Os gálatas não estavam brincando com diferentes versões das notícias de um jornal. Eles estavam brincando com fogo, com fogo do inferno. Paulo estava realmente agitado.
Os dois primeiros capítulos contém a biografia resumida de Paulo. Ele relatou como, antes da conversão, fora fariseu zeloso, subindo a escada do sucesso na sua profissão por intermédio da perseguição aos cristãos, perseguição esta que contava com o apoio dos seus superiores. Com tais antecedentes, quem pensaria ser possível ele dizer que a circuncisão e a guarda da Lei não eram importantes para a salvação?
Ele se referiu à sua conversão na estrada para Damasco, ressaltando o aspecto divino. Deus o tinha “separado”; Deus o tinha “chamado”; Deus lhe tinha “revelado o seu Filho”. A sua salvação não tinha sido algo que ele tivesse merecido; foi tudo pela graça de Deus (Gálatas 1:15 e 16).
Qualquer um que estivesse prestando atenção – e quem não estava? – teria entendido a explicação. Paulo não podia ter inventado a mensagem; nem podia ter abrandado os pontos de vista judaicos do evangelho tornando-o mais agradável aos gentios. Estava fazendo somente aquilo que Deus lhe ordenara. Estava levando aos gálatas a mensagem recebida de Deus.
Em outras palavras, Paulo disse: “Se vocês não gostam do evangelho que estou pregando, não ponham a culpa em mim. Ponham a culpa em Deus. Foi tudo obra dele.”
Paulo sabia que se a sua salvação dependesse dele próprio, ainda estaria perseguindo os cristãos. Mas Deus o havia chamado e ele não tinha dúvidas de que a iniciativa era de Deus.
De igual modo, a mensagem que ele pregava era a mensagem divina, e não dele, e era isso que lhe permitia ser ousado na pregação. Veja só! Se Deus o chamar para ir a algum lugar, e se Deus lhe der a mensagem para pregar, você não precisa preocupar-se. Você está nas mãos de Deus, e não há lugar mais seguro do que esse.
Estas lições eram as que Timóteo ainda tinha de aprender. Ele estava preocupado com a sua falta de capacidade de enfrentar situações realmente difíceis.
Se, porém, é Deus que toma a iniciativa da nossa salvação e nos dá a mensagem, então não precisamos preocupar-nos com a falta de capacidade. Se o relacionamento vertical está garantido, não importa a incógnita dos relacionamentos horizontais.
Na última metade do capítulo 1 da Epístola aos Gálatas, Paulo ressalta que a sua autoridade é vertical, não horizontal. Não consultou os outros apóstolos sobre o que deveria pregar. Era mais importante considerar a soberania divina que pensar na reação humana. E era mais importante considerar a comunhão com Deus que a confraternização com os irmãos.
Não se pode negar que a vida de Paulo foi muito movimentada, como fora movimentada a vida de Cristo. Mas, como Jesus sentiu necessidade de sair para orar muito antes do amanhecer, assim Paulo achou importante ficar na Arábia durante três anos antes dos seus 30 anos de ministério cristão.
Nos dias de hoje, confraternização tornou-se mais popular do que adoração. Algumas vezes os nossos compromissos de comunhão com os homens fazem com que não tenhamos tempo para a comunhão com Deus.
Quando Paulo chegou a Jerusalém depois de ter passado três anos no deserto da Arábia, os discípulos tiveram medo dele (Atos 9:26) até que Barnabé o tomou sob sua proteção. Parece que mesmo com Barnabé ao lado de Paulo, somente Tiago, o irmão do Senhor, e Pedro passaram algum tempo com ele.
Durante 12 a 14 anos depois (os judeus contavam o tempo de um modo um pouco diferente do atual; partes de um ano eram contadas como se fossem anos inteiros), Paulo esteve pregando e ensinando o evangelho em Antioquia da Síria e Tarso da Cilícia. Então ele voltou novamente a Jerusalém. É provável que esta visita (Gálatas 2) seja a mencionada por Lucas em Atos 11:30, embora alguns estudiosos das Escrituras não concordem absolutamente com isso. Embora o objetivo principal tenha sido trazer fundos para aliviara fome dos cristãos de Jerusalém e dos seus arredores, Paulo aproveitou a oportunidade para explicar claramente com todos os detalhes o seu acesso teológico aos gentios. Ele queria assegurar-se de que a sua pregação estava na mesma linha do ensinamento dos outros apóstolos. Depois do encontro, os outros apóstolos cumprimentaram Barnabé e Paulo e os encorajaram a continuar pregando o evangelho aos gentios.
Tudo isto ele explicou na sua carta (Gálatas 1-2)
A esta altura, Paulo já havia assinalado os seus pontos principais: 1. A sua mensagem veio de Deus, e não de homens. 2. Não era o tipo de mensagem que se esperasse que alguém como ele, de antecedentes farisaicos, inventasse. 3. Os apóstolos estavam de pleno acordo com a sua mensagem.
Acordo, sim.
Mas nem sempre entendiam tudo o que isso significava.
Como F. F. Bruce afirma: “A posição de Paulo era bem definida porque ele já havia meditado no problema e o solucionado; os líderes de Jerusalém ainda não tinham tido oportunidade de pensar nessas questões.”
Deste modo Paulo ajudou-os no decurso da reflexão. Ele deu um exemplo (Gálatas 2) que já mencionei. Pedro veio a Antioquia e confraternizou de todas as maneiras com os judeus e com gentios. Logo depois, chegaram judeus de Jerusalém; então, Pedro começou a “segregar-se”. Por isso Paulo teve de ajudar a Pedro a “pensar no assunto”.
A conversa de Pedro e Paulo poderia ter sido mais ou menos assim:
PAULO: Você não me disse que Jesus veio para chamar pecadores, não os justos, para o arrependimento, que ele veio para buscar a ovelha perdida e trazer de volta o filho pródigo?
PEDRO: Sim, foi isso mesmo.
PAULO: E você não me disse que no dia de Pentecostes você pregou e disse à multidão que tudo que eles precisavam fazer era arrepender-se e crer?
PEDRO: Perfeitamente.
PAULO: Foi a Lei que trouxe salvação para aquele povo?
PEDRO: Absolutamente, não. Foi Jesus.
PAULO: Então o que a Lei fez por eles?
PEDRO: A Lei apenas mostrou que somos todos pecadores e precisamos de um Salvador.
PAULO: E você, admitindo que é pecador, não se está colocando na mesma situação dos gentios, quanto à salvação?
PEDRO: Perfeitamente. Compreendi isso quando batizei Cornélio, o centurião.
PAULO: Então, quanto à salvação, não há diferença entre judeus e gentios?
PEDRO: Certo. A salvação não tem nada que ver com a guarda da Lei. Vem somente pela fé em Jesus Cristo.
PAULO: Então por que você deixou de comer com os gentios quando os seus amigos de Jerusalém chegaram? Por que aquelas leis e regulamentos são tão importantes para você?
PEDRO: Bem, não são importantes para a salvação, mas eu não queria levá-los a pecar.
PAULO: Mas, se comendo com os gentios você estava demonstrando sua unidade cristã com eles, então Jesus deve ter levado você a pecar.
PEDRO: Jesus não leva ninguém a pecar.
PAULO: Eu sei. Você não percebe o quanto a sua posição é absurda?
PEDRO: Bem, não é mesmo muito coerente. Mas coerência jamais foi o meu forte. Diga-me, Paulo, se você não tiver regras e regulamentos para seguir, como poderá viver uma vida santa?
PAULO: Bem, Pedro, diariamente eu me vejo crucificado com Cristo. Assim, em certo sentido o velho Paulo está morto. Embora, é claro, eu ainda esteja vivo. Mas nesta nova vida que tenho, estou vivendo pela fé naquele que em amou e deu a sua própria vida por mim. Se a cruz de Cristo foi suficientemente grande para me salvar, ela também é suficientemente grande para me guardar. (Gálatas 2:20).
Paulo não estava interessado em contar aos gálatas que tinha posto Pedro no seu lugar. Estava interessado, porém, em restaurar a sua credibilidade. Podiam os gálatas confiar nele? Sabia ele o que estava falando? Era ele realmente um apóstolo conforme afirmava? Era ele digno de crédito em questões de valor eterno?
É claro que o objetivo real de Paulo em estabelecer a sua credibilidade envolvia a própria natureza do evangelho. Podiam os gálatas confiar em Paulo no tocante à salvação? Não era uma indagação referente a leis, tais como se deviam ou não preparar uma refeição no dia do Senhor. Era: “Como é que somos salvos?” e esta indagação era o âmago, a essência do Cristianismo.
E o âmago do argumento de Paulo acha-se na pergunta: “recebestes o Espírito Santo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2).
Não havia dúvida sobre a resposta, mas Paulo fez a mesma pergunta de outro modo: “Aquele, pois, que vos concede o espírito e que opera milagres entre vós, porventura o faz pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (3:5).
Mais uma vez não havia dúvida de qual seria a resposta.
Assim, Paulo tornou o argumento mais claro. “É o caso de Abraão que creu em deus, e isso lhe foi imputado por justiça” (Gênesis 15:6). Isso foi antes de deus ter instituído o rito da circuncisão.
Mas Paulo ainda argumentou: “Suponha que uma pessoa queira ser salva pela Lei de qualquer jeito. Bem, a Lei exige perfeição. Se um homem não for 100% perfeito, ele está debaixo da maldição”. E Paulo tinha certeza de que não havia muitas pessoas 100% perfeitas na Galácia (Gálatas 3:10-12).
Paulo chegou aonde queria. Em toda a epístola aos Gálatas nota-se uma linguagem forte, mas também há ternura (Gálatas 4:12-20, por exemplo). Ele se expressou como um pai preocupado o faria para com um filho teimoso.
É evidente que Paulo estava desapontado com os gálatas. Eles eram inconstantes e facilmente influenciados.
Apesar de os gálatas não demonstrarem possuir constância, Timóteo a possuía. Ele tinha outras fraquezas e fragilidades, mas podia-se confiar nele; era digno de confiança; era fiel.
É difícil ser fiel quando todos ao redor estão vacilando. É difícil ser fiel quando a pessoa reconhece ser fraca e tímida. Mas o que impressionou Paulo foi a fidelidade de Timóteo (I Coríntios 4:17).
Em Gálatas 5, Paulo delineou o fruto do Espírito e mencionou a palavra fé como a sétima da lista, que também significa fidelidade e também lealdade. Esse era um fruto do espírito que Timóteo possuía.
Jesus disse: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lucas 16:10). Não foi pouca coisa para Timóteo o fato de permanecer fiel quando outros estavam censurando Paulo e seguindo os ensinamentos dos judaizantes.

Mas ainda viriam provas maiores para a fidelidade de Timóteo.

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